Moody's mantém França no Aa3, mas a nota depende do orçamento de 2027 que a Assembleia esvazia
A Moody's manteve a França no Aa3, com perspectiva negativa, na sexta-feira, 23 de outubro, contrariando o rebaixamento que o mercado já havia precificado. A nota agora depende de um orçamento de 2027 com corte do déficit — justamente o projeto do qual a Assembleia Nacional vem retirando as medidas de economia.
Vincent Jiang · 3 min read
O rebaixamento que o mercado já precificava não veio
A Moody's−1.55% — Moody's, down 1.55 percent today encerrou a revisão da França na noite de sexta-feira, 23 de outubro, com a decisão que o mercado já não esperava: manutenção 1234. A nota segue em Aa3, o quarto maior grau da agência, sete degraus acima do grau especulativo e no mesmo nível do Reino Unido, com a perspectiva negativa inalterada 1234. Um corte para A1 era o consenso — e apenas teria igualado o A+ que as agências rivais S&P e Fitch atribuíram à França no fim de 2025 3. Théophile Legrand, estrategista de juros do banco francês Natixis, já havia chamado o rebaixamento de cenário "central", já em grande parte embutido nos preços 1.
O mercado rebaixou a França primeiro
O mercado de títulos já havia se mexido antes da agência. O custo de captação da França a dez anos chegou a 5,14% na quinta-feira, 22 de outubro, o maior nível desde julho de 2002, e o prêmio sobre os títulos alemães (bunds) está no maior patamar em 15 anos: a França hoje capta a taxas mais altas que a Itália, que tem nota inferior 25. A Alemanha paga cerca de 3,4%, contra aproximadamente 3,2% da França antes da guerra entre EUA e Irã — o custo extra é exclusivamente francês 1.
França paga 5,14% para captar a dez anos; Alemanha, 3,4%
Data
| Value | |
|---|---|
| Alemanha | 3.4% |
| França, antes da guerra entre EUA e Irã | 3.2% |
| França, nesta semana | 5.14% |
Sob a nota, a dívida: déficit perto de 5,5% do PIB, contra o teto de 3% da União Europeia; dívida rumo a 121,7% do PIB em 2027; e mais de US$ 1 trilhão vencendo até 2030 2. Com taxas nesse nível, a conta de juros disputa o mesmo orçamento que escolas e aposentadorias 6.
Moody's atrelou a nota a um orçamento que a Assembleia enfraquece
A Moody's escreveu sua própria ressalva: a nota "pressupõe que um orçamento de 2027 com corte do déficit será aprovado" 5. A Assembleia Nacional, a câmara baixa da França, faz o contrário: derruba as principais medidas de economia de um projeto de lei que mira um déficit de 5% do PIB, ante 5,4% neste ano 5.
Até a meta de déficit de 2027 fica dois pontos acima do teto de 3% da União Europeia
Data
| Déficit, % do PIB | |
|---|---|
| Neste ano | 5.4% |
| Meta do orçamento de 2027 | 5% |
| Teto da União Europeia | 3% |
O ministro das Contas Públicas, David Amiel, reclamou que "chovem bilhões e as medidas de economia são mecanicamente anuladas entre aplausos" — o déficit da seguridade social piorou em mais de 5 bilhões de euros durante a tramitação do projeto 1. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu leu a manutenção da nota como um desmentido aos especialistas catastrofistas 1. Uma nota condicionada a um orçamento que a câmara está desfazendo não é uma trégua — é uma data-limite.
Manutenção da nota deixa intacta a tese dos vendidos
Para quem está vendido na dívida francesa, pouca coisa mudou na noite de sexta-feira. Legrand, da Natixis, considera a decisão uma surpresa bem-vinda no curto prazo, com o risco de rebaixamento "plenamente presente", e Jérémie Peloso, da BCA Research, chega a admitir uma oportunista "compra na baixa" nos títulos franceses 1.
Rushabh Amin, gestor de carteira da Allspring, espera que o movimento decisivo do spread aconteça nos seis meses que levam à eleição presidencial de 18 de abril e 2 de maio, que, segundo as pesquisas, a extrema direita pode ganhar 5. Mike Bell, chefe de estratégia de mercados da RBC BlueBay, alerta que uma queda para BBB nas três agências após a votação forçaria fundos com restrições de nota de crédito a vender 5.
Os protestos recomeçam no sábado, após os distúrbios de 17 de outubro: mais de 500 mil manifestantes, 2,4 mil prisões, perdas de até 200 milhões de euros com saques na varejista Carrefour e queda de 16% no grupo de luxo Kering 127. A leitura que decide a operação é o spread frente aos títulos alemães (bunds) quando os mercados reabrirem na segunda-feira 7.
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